Durante muito tempo caminhar foi uma forma de chegar a algum lado. Do ponto A ao ponto B no menor tempo possível. Com auscultadores, com o telemóvel na mão, com a cabeça a pensar no que ia fazer quando chegasse.

Em Portugal comecei a sair de casa sem saber bem para onde ia. Escolhia uma direção e ia andando até o corpo querer parar ou virar. Sem mapa, sem objetivo, sem música.

O que aparece quando não se procura

Quando não tenho destino, reparo em coisas que de outra forma passariam completamente despercebidas. Um portão de ferro trabalhado que nunca tinha visto. Uma conversa em voz alta entre dois vizinhos sobre o futebol. O cheiro do café torrado que sai de uma pequena torrefação escondida numa rua lateral.

Uma vez encontrei uma praça pequena com um coreto antigo que não aparece em nenhum guia turístico. Sentei-me lá durante quase uma hora a ver as crianças brincarem e os idosos jogarem às cartas. Não tirei fotografias. Apenas estive lá.

Quando os passos não têm destino, os olhos têm tempo de ver o que o caminho oferece.

A cidade como sequência de descobertas

Caminhar sem destino transforma a cidade numa sequência de pequenas descobertas em vez de um espaço que se atravessa. Cada curva pode esconder algo. Cada rua lateral pode valer a pena.

Não faço isto todos os dias. Há dias em que preciso de chegar a algum lado e vou o mais direto possível. Mas reservei alguns dias por semana para estas caminhadas sem objetivo. São os dias em que mais gosto de viver aqui.

Experimentar

Se tiver vontade, experimente sair de casa uma tarde sem saber para onde vai. Deixe que os passos decidam. Quando sentir que já viu o suficiente, volte. Não precisa de ser uma grande aventura. Basta ser uma hora em que o corpo anda e a cabeça não tem de decidir nada.