Durante muito tempo a cozinha foi para mim um espaço de stress. Tinha sempre uma receita aberta no telemóvel ou num livro, e sentia que se não seguisse todos os passos exatamente como estavam escritos, o resultado ia ser uma desilusão. Havia sempre uma sensação de que estava a ser testada.

Quando comecei a viver sozinha em Portugal, sem a pressão de impressionar ninguém, comecei a cozinhar de outra forma. Sem receita. Sem medir. Sem saber exatamente o que ia sair da panela.

O que tinha na bancada

Comecei a olhar para o que estava realmente disponível. Duas cebolas, três tomates um pouco moles, um pedaço de queijo que precisava de ser usado, ervas que tinha plantado na varanda. Em vez de ir ao supermercado comprar o que faltava para uma receita, tentava fazer alguma coisa com o que já existia.

No início saía mal muitas vezes. O molho ficava demasiado ácido, o arroz empapado, o tempero desequilibrado. Mas aos poucos comecei a perceber o que o meu paladar gostava. Aprendi que um pouco de açúcar equilibra o tomate. Que o alho não precisa de ser muito. Que o azeite no fim faz diferença.

Cozinhar sem plano ensina mais do que cozinhar com receita. Porque o erro fica visível e o acerto é seu.

O mercado como ponto de partida

Quando comecei a ir ao mercado semanalmente sem lista, a cozinha mudou ainda mais. Comprava o que parecia bom naquele dia. Se havia couve-flor bonita, levava. Se os pimentos estavam baratos, levava dois quilos. Depois em casa via o que podia fazer com aquilo.

Esta forma de cozinhar tirou-me a pressão de ter de ser criativa todos os dias. A criatividade vinha do que o mercado oferecia, não da minha cabeça. Eu só tinha de responder.

O que ficou

Hoje em dia ainda sigo receitas de vez em quando, especialmente quando quero aprender uma técnica nova. Mas a maior parte das refeições que faço são improvisadas com o que tenho. E gosto mais delas.

Não é sobre ser uma cozinheira melhor. É sobre a cozinha deixar de ser um lugar onde eu tenho de provar alguma coisa e passar a ser um lugar onde eu faço alguma coisa com o que existe. E isso, por alguma razão, torna o ato de cozinhar mais leve.

Se quiser experimentar, comece pequeno. Uma noite por semana, não abra nenhuma receita. Olhe para o que tem no frigorífico e na despensa. Veja o que consegue fazer com isso. Pode sair estranho. Pode sair surpreendentemente bom. O importante é que saiu de si.