Durante anos tentei seguir rotinas matinais que via em livros e em perfis de pessoas que pareciam ter a vida organizada. Acordar às seis, hidratar, meditar, fazer exercício, planear o dia. Sempre acabava por desistir ao fim de dez ou doze dias. O corpo revoltava-se ou a cabeça perdia o interesse.

Quando cheguei a Portugal e o tempo pareceu abrandar, comecei a prestar atenção ao que realmente acontecia nas primeiras horas do dia. Não o que eu achava que deveria acontecer, mas o que de facto me fazia sentir que o dia tinha começado de forma decente.

O que ficou depois de tirar tudo

Experimentei tirar quase tudo. Sem despertador (acordo naturalmente por volta das sete). Sem lista de tarefas. Sem obrigação de fazer qualquer coisa específica. O que sobrou foi muito pouco: levantar-me, abrir a janela do quarto, ir à cozinha, ferver água para chá ou café, sentar-me à mesa com o que tivesse por perto para escrever ou desenhar.

No início parecia pouco. Quase nada. Mas depois de algumas semanas percebi que este nada era o suficiente para o corpo perceber que o dia tinha começado. Não precisava de mais.

O ritual que funciona é aquele que não pede nada em troca. Apenas acontece.

Como o corpo aprendeu

Depois de algum tempo, o corpo começou a antecipar estes gestos. Acordava e já queria ir até à janela. A cabeça já sabia que depois da água a ferver viria o momento de estar sentada sem fazer nada em particular. Não era uma regra. Era uma sequência que o corpo reconhecia como início de dia.

Há dias em que acordo mais tarde ou mais cedo. Há dias em que o chá fica esquecido na panela. Não faz mal. O ritual não é rígido. É apenas uma referência, um ponto de partida que o corpo aprendeu a gostar.

Por que isto importa

Percebi que quando o início do dia não é uma exigência, o resto do dia também tende a ser menos exigente. Não trabalho mais rápido nem melhor. Mas trabalho com menos sensação de que estou sempre a tentar recuperar de alguma coisa.

Não partilho isto como um método que toda a gente deveria copiar. Cada pessoa tem o seu próprio corpo e o seu próprio ritmo. Mas para mim, depois de anos a tentar encaixar-me em sistemas que não eram meus, descobrir que o mais simples era também o mais sustentável foi uma surpresa.

Se tiver vontade, experimente durante uma semana: tire tudo o que não é essencial nas primeiras horas do dia. Veja o que sobra. Veja se o corpo reconhece esses gestos como um começo decente. Às vezes o que fica é surpreendentemente suficiente.